por Célia Firmino
A criança que fui chora na estrada.
Deixei-a ali quando vim ser quem sou;
Mas hoje, vendo que o que sou é nada,
Quero ir buscar quem fui onde ficou.
Ah, como hei-de encontrá-lo? Quem errou
A vinda tem a regressão errada.
Já não sei de onde vim nem onde estou.
De o não saber, minha alma está parada.
Se ao menos atingir neste lugar
Um alto monte, de onde possa enfim
O que esqueci, olhando-o, relembrar,
Na ausência, ao menos, saberei de mim,
E, ao ver-me tal qual fui ao longe, achar
Em mim um pouco de quando era assim.
Eu não tenho filosofias, tenho sentidos. E é movida pelos sentidos que ouso arriscar uma possibilidade de sentido, dentre tantos já publicados, para esse profundo soneto de Pessoa. Ninguém filosofou mais sobre a vida do que ele. Avesso a metafísicas, praticou a filosofia dos sentidos por acreditar que já há metafísica bastante o não pensar em nada. E, paradoxalmente, não pensar em nada é pensar sobre tudo. E como pensou! Com os olhos, com os ouvidos, com as mãos, com os pés, com todos os sentidos. Fez-se guardador de rebanhos, para ele, seus próprios pensamentos. E por tê- los amado tanto é que torna-se-nos possível estarmos aqui a filosofar sobre seus rebanhos.
Pessoas, natureza, estradas, sentidos e sentimentos foram a base de sua filosofia, afilosófica, e de seus heterônimos. Nas memórias e saudades, no que já passou antes e no que passará depois, nas coisas que um dia foram e nas coisas que nunca serão, nas ausências e saudades de si, residem a profunda existência de Pessoa que, dentre tantos outros, talvez não tenha conseguido ser ele mesmo. O fato é que, ele mesmo, talvez não saiba, nos despiu em tantos outros e, aprendemos, ainda que tardiamente que, o essencial é saber ver, sem estar a pensar e isso exige um estudo profundo, uma aprendizagem do desaprender. E tristes de nós que trazemos a alma vestida. Tiremos as máscaras pegadas à cara de tanto representarmos o que não somos. Quantos de nós ficamos pelos caminhos do ser quem somos? Que sentimento de ausência de nós nos acompanha, a cada passo que avançamos no ser adulto? Que filosofias fomos cultivando que nos distanciam de nós mesmos? Por que é que ver e ouvir não significa conhecer-nos, nem sentir-nos? A ausência de fidelidade entre o que pensamos e o que somos torna-nos tristes e filósofos. E a necessidade de buscar quem fomos quando vimos ser quem somos, obriga-nos a refletir sobre a perplexidade da existência.
A indagação do sujeito lírico remete-nos à necessidade de atarmos as duas pontas de nossas vidas – o passado e o presente – para encontrarmos as respostas que preenchem as lacunas de nosso vazio interior. Necessariamente, o que somos deve ser o resultado do que fomos. A criança é a imagem, não da inocência, mas das possibilidades do aprender, do neófito que, submetido à vida, deve vivenciar as experiências naturais da infância que prepara a maturidade, num processo evolutivo integral, sem que infância signifique a ruptura para a fase adulta, mas a sua contigüidade. Deixar a criança para ser o adulto, para o eu lírico, significa mutilação do eu profundo, uma dicotomia que, se não conciliada, compromete o ser integral pela paralisia existencial. O sacrifício da infância interior condena a maturidade a uma existência vazia de encantos.
O sentido de descoberta reside na constatação de que o adulto sacrificou a criança e, por isso, o sentimento de vazio só será preenchido com o reencontro entre a criança abandonada que fomos e o adulto vazio que somos, em algum lugar, desta estrada chamada vida.
Estrada é o símbolo do desenvolvimento humano, a trajetória por excelência. O caminho por onde todos, inevitavelmente, teremos de percorrer para avançarmos na conquista da aprendizagem.
O começo é o de todos: ser criança, como condição sine qua non para a maturidade, uma conquista que, para ser integral, deve conciliar as várias etapas da vida, numa convivência harmoniosa, entre os seres plurais que somos, entre os papéis que representamos ao longo da existência. A criança é o protótipo do adulto, assim como o adulto deve integrar a criança que foi no que já aprendeu a ser. Ser adulto não deve significar deixar a criança que fomos. E reviver a criança que fomos no adulto que somos não significa a volta à imaturidade, mas o resgate da simplicidade e de uma certa ingenuidade que tornam as relações humanas mais naturais e sublimes.
Afinal, evoluir implica o movimento de integração e emancipação, em convivência harmoniosa, consolidando os traços da identidade: ser adulto convivendo com criança interior, significa a aprendizagem do humano, em potência máxima. E uma das mais belas aprendizagens é gozar o segredo comum de saber que por toda a parte não há mistério no mundo e que tudo vale a pena. Somos seres plurais, pelas múltiplas experiências e papéis representados nas existências sucessivas. E estes não devem ser contraditórios, mas interdependentes e harmônicos.
No entanto, por um processo de ruptura e contradições, vamos deixando, ao longo da estrada, os outros eus, na crença de que para ser é necessário deixar o que se foi, como página virada, desvinculada dos capítulos atuais de nossa existência. O resultado é o sentimento de frustração por não alcançar a plenitude, uma vez que esta é o resultado da harmonização de todos os “eus”.
O ser fragmentado e estagnado, sem saber muito bem por onde deve seguir, é a tônica da segunda estrofe. O não-saber paralisa as forças interiores e superlativa a angústia.
A busca, no entanto, é a urgência da consciência que desperta. Quais são os laços que nos vinculam à criança interior? Que lugar é esse de nossa memória capaz de nos trazer de volta à infância e nela integrar o adulto? A lembrança é o ponto de contato entre o passado e o presente. O lugar da memória é o porto de passagem para reconciliar os tempos dissociados entre o esquecimento e a lembrança. Não apenas a memória factual, mas a emocional. É disso que trata o poema - olhar para trás significa recordar e reviver. Recordar, etimologicamente, significa voltar a viver no coração. E revivendo, resgatar um pouco do que fomos no que somos, já que “ser adulto” significa, nos tempos modernos, “deixar de ser criança”. O preço é sempre o sentimento de incompletude, amenizado pela lembrança do ser feliz, associado, via de regra, à infância. De qualquer forma, a reconciliação com a criança interior parece-nos uma emergência para a felicidade, um resgate emocional do que fomos como condição para o “vir -a - ser”. A criança que fomos, uma vez reencontrada, traz o sentido renovação do que somos:
“A Criança Nova que habita onde vivo
Dá-me uma mão a mim
E a outra a tudo o que existe
E assim, vamos os três pelo caminho que houver.”
Referências:
PESSOA, Fernando. O Eu profundo e os outros Eus. 15ª ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1980.
"Pegar um livro e abri-lo guarda a possibilidade do fato estético. O que são as palavras dormindo num livro? O que são esses símbolos mortos? Nada, absolutamente. O que é um livro se não o abrimos? Simplesmente um cubo de papel e couro, com folhas; mas se o lemos acontece algo especial, creio que muda a cada vez." Jorge Luís Borges
sábado, 16 de abril de 2011
Peregrinação
Peregrinação
De que areias e desertos,
É feita tua solidão, tão frágil
Como os rastros na poeira
Esparsos pelo vento?
De que distâncias são feitos
Esses horizontes, imensos,
Paralelos, contínuos,
intocáveis?
Em que céus sem estrelas
Habitam teus sonhos
Tristes, vagos, desconhecidos?
Em que sorriso escondeu
Tua alegria?
Que ilusão roubou-te
A fantasia?
E agora nua e fria,
Por onde andas
a procura de ti?
Célia Firmino
De que areias e desertos,
É feita tua solidão, tão frágil
Como os rastros na poeira
Esparsos pelo vento?
De que distâncias são feitos
Esses horizontes, imensos,
Paralelos, contínuos,
intocáveis?
Em que céus sem estrelas
Habitam teus sonhos
Tristes, vagos, desconhecidos?
Em que sorriso escondeu
Tua alegria?
Que ilusão roubou-te
A fantasia?
E agora nua e fria,
Por onde andas
a procura de ti?
Célia Firmino
sexta-feira, 7 de janeiro de 2011
Foram muitos, os professores...
(Discurso de Paraninfa da turma de Letras 2010)
A vocês que compuseram a minha história...
“Foram muitos, os professores...”
"Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas...
Que já têm a forma do nosso corpo...
E esquecer os nossos caminhos que nos levam sempre aos mesmos lugares ...
É o tempo da travessia ...E se não ousarmos fazê-la ...
Teremos ficado ... para sempre ...
À margem de nós mesmos..."
Nesse momento, nenhum pensamento expressa melhor o sentido de estarmos aqui, do que a idéia de travessia. É preciso saber quando uma etapa chega ao final. Se insistirmos em permanecer nela mais do que o tempo necessário, perdemos a alegria e o sentido das outras etapas que precisamos viver. É o sentimento de busca que move esse espírito sempre inquieto, insatisfeito e eternamente aprendiz.
Não poderia deixar de registrar minhas múltiplas aprendizagens nesse longo percurso, participando de uma turma tão especial. O direito à licença poética me autoriza a parafrasear Shakespeare e outros autores:
- Aprendi que trabalhar não significa ganhar dinheiro. Ganhar a vida não é mesma coisa que saber vivê-la. Há aquisições, cujo valor não se traduz em pecúnia. A amizade, a ética, a integridade moral, por exemplo.
Aprendi que se dar do que temos é bom, dar do que somos é sublime. Pessoas. amigos, parceiros, aprendizagens não podem ser mensuráveis monetariamente. O essencial é invisível aos olhos.
- Aprendi a enxergar com o coração, quando as coisas se tornam difíceis e os olhos ficam cegos.
Aprendi que amigos e parceiros, de verdade, podemos usar (e às vezes abusar) sem o risco de perdê-los. Eles ficarão conosco até o fim, apesar de nossas sombras. Com eles, somos livres para errar sem medo, para aprender do jeito que somos.
- Aprendi que uma aula pode ser muito mais que um tempo e uma pauta, pode ser um encontro. E um encontro só acontece quando você consegue tocar a alma. Estar juntos só é possível quando estamos do lado de dentro.
- Aprendi que não importa o tipo de relacionamento que tenhamos com nossos alunos e parceiros de trabalho; um dia sentiremos falta deles: do sorriso, da depressão, do mau humor, da participação, do silêncio, das piadas, das cobranças, da indiferença, do envolvimento, das perguntas, das respostas, enfim, da humanidade de cada um.
- Aprendi que por trás da irritação, da ira, da ansiedade, da tristeza, do silêncio, da contestação, há uma pessoa que espera ser compreendida e amada; basta esculpi-la com o olhar e encontramos sempre um diamante de rara beleza.
- Aprendi que cada pessoa é insubstituível, porque é única. As funções, as profissões são impessoais e transitórias; as coisas passam, a essência fica,; as s pessoas continuam irrepetíveis. Deixam sua marca pessoal no caminho trilhado, como nenhuma outra: isso se chama identidade.
- Aprendi que cativar é ter necessidade um do outro. E a necessidade é a consciência de que é preciso compartilhar para sermos inteiros.
- Aprendi que não é a perfeição que torna o mundo mais bonito; é a paixão. Quando se é apaixonado pelo que faz, o mundo se transforma num espetáculo inesquecível e todas as pessoas, sem exceção, valem por estrelas; irradiam luzes, mesmo em noite escura.
- Aprendi que, às vezes, os nossos melhores professores são os alunos que nos submetem aos testes mais difíceis para esculpir as nossas almas. São os que exigem de nós paciência, tolerância, compreensão, aceitação incondicional, compaixão. Estão por toda a parte, representam os mais variados papeis. São os nossos “amores exigentes.”
- Aprendi que tempo não pára e, no entanto, ele envelhece. Nada é mais perecível do que o tempo. Mas, detemos o poder da eternidade. Eternizamos, em nós, os que aprendemos a amar (a mais sublime aprendizagem); e nos eternizamos nos corações que nos acolheram e nos deram de si mesmos..
- Aprendi, então, que cada pessoa é portadora de uma mensagem e, ao passar por nossas vidas, deixa sempre um pouco de si, assim como leva um pouco de nós. E se alguém se torna bagagem, a saudade é o sintoma de que estamos irremediavelmente do lado de dentro; deixamos de ser “eu” para sermos “nós”; isso se chama crescimento.
Hoje, revisitando a nossa trajetória, posso concluir que, parafraseando o escritor Bartolomeu Campos Queiroz, múltiplas foram as aprendizagens, muitos foram os meus mestres, e saibam que vocês, queridos formandos, estão entre os inesquecíveis. E de cada um juntei cada pedaço e protegi em minha intimidade como o mais valioso bem que possuo e que ninguém pode me tirar. E se posso compartilhar meu segredo, de tudo mais, resta ainda, a certeza da paixão como a primordial metodologia. E essencialmente por isso, tudo ficou definitivamente impossível de ser desaprendido.
Minha eterna e sincera gratidão.
Andradina, 17 de dezembro de 2010.
Profa. Msc. Célia Firmino
A vocês que compuseram a minha história...
“Foram muitos, os professores...”
"Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas...
Que já têm a forma do nosso corpo...
E esquecer os nossos caminhos que nos levam sempre aos mesmos lugares ...
É o tempo da travessia ...E se não ousarmos fazê-la ...
Teremos ficado ... para sempre ...
À margem de nós mesmos..."
Nesse momento, nenhum pensamento expressa melhor o sentido de estarmos aqui, do que a idéia de travessia. É preciso saber quando uma etapa chega ao final. Se insistirmos em permanecer nela mais do que o tempo necessário, perdemos a alegria e o sentido das outras etapas que precisamos viver. É o sentimento de busca que move esse espírito sempre inquieto, insatisfeito e eternamente aprendiz.
Não poderia deixar de registrar minhas múltiplas aprendizagens nesse longo percurso, participando de uma turma tão especial. O direito à licença poética me autoriza a parafrasear Shakespeare e outros autores:
- Aprendi que trabalhar não significa ganhar dinheiro. Ganhar a vida não é mesma coisa que saber vivê-la. Há aquisições, cujo valor não se traduz em pecúnia. A amizade, a ética, a integridade moral, por exemplo.
Aprendi que se dar do que temos é bom, dar do que somos é sublime. Pessoas. amigos, parceiros, aprendizagens não podem ser mensuráveis monetariamente. O essencial é invisível aos olhos.
- Aprendi a enxergar com o coração, quando as coisas se tornam difíceis e os olhos ficam cegos.
Aprendi que amigos e parceiros, de verdade, podemos usar (e às vezes abusar) sem o risco de perdê-los. Eles ficarão conosco até o fim, apesar de nossas sombras. Com eles, somos livres para errar sem medo, para aprender do jeito que somos.
- Aprendi que uma aula pode ser muito mais que um tempo e uma pauta, pode ser um encontro. E um encontro só acontece quando você consegue tocar a alma. Estar juntos só é possível quando estamos do lado de dentro.
- Aprendi que não importa o tipo de relacionamento que tenhamos com nossos alunos e parceiros de trabalho; um dia sentiremos falta deles: do sorriso, da depressão, do mau humor, da participação, do silêncio, das piadas, das cobranças, da indiferença, do envolvimento, das perguntas, das respostas, enfim, da humanidade de cada um.
- Aprendi que por trás da irritação, da ira, da ansiedade, da tristeza, do silêncio, da contestação, há uma pessoa que espera ser compreendida e amada; basta esculpi-la com o olhar e encontramos sempre um diamante de rara beleza.
- Aprendi que cada pessoa é insubstituível, porque é única. As funções, as profissões são impessoais e transitórias; as coisas passam, a essência fica,; as s pessoas continuam irrepetíveis. Deixam sua marca pessoal no caminho trilhado, como nenhuma outra: isso se chama identidade.
- Aprendi que cativar é ter necessidade um do outro. E a necessidade é a consciência de que é preciso compartilhar para sermos inteiros.
- Aprendi que não é a perfeição que torna o mundo mais bonito; é a paixão. Quando se é apaixonado pelo que faz, o mundo se transforma num espetáculo inesquecível e todas as pessoas, sem exceção, valem por estrelas; irradiam luzes, mesmo em noite escura.
- Aprendi que, às vezes, os nossos melhores professores são os alunos que nos submetem aos testes mais difíceis para esculpir as nossas almas. São os que exigem de nós paciência, tolerância, compreensão, aceitação incondicional, compaixão. Estão por toda a parte, representam os mais variados papeis. São os nossos “amores exigentes.”
- Aprendi que tempo não pára e, no entanto, ele envelhece. Nada é mais perecível do que o tempo. Mas, detemos o poder da eternidade. Eternizamos, em nós, os que aprendemos a amar (a mais sublime aprendizagem); e nos eternizamos nos corações que nos acolheram e nos deram de si mesmos..
- Aprendi, então, que cada pessoa é portadora de uma mensagem e, ao passar por nossas vidas, deixa sempre um pouco de si, assim como leva um pouco de nós. E se alguém se torna bagagem, a saudade é o sintoma de que estamos irremediavelmente do lado de dentro; deixamos de ser “eu” para sermos “nós”; isso se chama crescimento.
Hoje, revisitando a nossa trajetória, posso concluir que, parafraseando o escritor Bartolomeu Campos Queiroz, múltiplas foram as aprendizagens, muitos foram os meus mestres, e saibam que vocês, queridos formandos, estão entre os inesquecíveis. E de cada um juntei cada pedaço e protegi em minha intimidade como o mais valioso bem que possuo e que ninguém pode me tirar. E se posso compartilhar meu segredo, de tudo mais, resta ainda, a certeza da paixão como a primordial metodologia. E essencialmente por isso, tudo ficou definitivamente impossível de ser desaprendido.
Minha eterna e sincera gratidão.
Andradina, 17 de dezembro de 2010.
Profa. Msc. Célia Firmino
sexta-feira, 29 de janeiro de 2010
Discurso e Ideologia(s): um diálogo entre Althusser e Pêcheux
por Célia Firmino [*]
Althusser e Michel Pêcheux, dois nomes, duas vertentes convergindo para a discussão de um mesmo tema: o que é Ideologia.
Althusser trata de uma categoria, criada por ele – Ideologia (em geral), para distinguir um mecanismo ideológico, abstrato, eterno, a-histórico, imutável em sua forma e em toda a extensão de sua história das ideologias particulares, veiculadas e materializadas através dos aparelhos ideológicos do Estado.
Para o teórico, autor do estruturalismo funcionalista das ciências sociais, tais ideologias particulares são determinadas pelas lutas de classe, cujas práticas e regras materiais são prescritas e reguladas pelos aparelhos, que teriam, assim a função de reproduzir e perpetuar as condições de produção.
A teoria da Ideologia de Althusser (l970) apresenta três hipóteses fundamentais: a ideologia representa a relação imaginária de indivíduos com suas reais condições de existência; a ideologia tem uma existência porque existe sempre num aparelho e nas suas práticas; a ideologia interpela os indivíduos como sujeitos, ou seja, o sujeito é constituído como sujeito pela ideologia; sem a qual, não haveria sujeito.
Estabelecidas as bases da teoria de Althusser, podemos agora introduzir Pêcheux, objeto central deste trabalho, justificando que não o fizemos logo de início por considerar o fato de que Pêcheux retoma Althusser para constituir sua própria teoria, sendo portanto, necessário um breve esboço de suas idéias.
Pêcheux, considerado o iniciador do movimento da análise do discurso, propõe discutir o já dito por Althusser, acrescentando apenas que o funcionamento das ideologias, bem como a interpelação dos indivíduos como sujeitos se dá pelo discurso. Estabelece como objetivo esclarecer os fundamentos de uma teoria materialista dos processos discursivos, iniciando pela explicitação do que significa a expressão condições ideológicas da reprodução/transformação das relações de produção.
Concorda com Althusser ao considerar que a reprodução/transformação se baseia numa divisão em classes, cujo princípio é a luta de classes, reforçando que a ideologia não é o único elemento dentro do qual se efetuaria a reprodução/transformação das relações de produção de uma formação social. Há que se considerar as determinações econômicas que, em última instância, condicionam essa reprodução no seu interior. A luta de classes atravessa o modo de produção em seu conjunto, o que, na área de ideologia, significa que a luta de classes passa por o que Althusser chamou de aparelhos ideológicos do Estado.
Há um caráter intrinsecamente contraditório atribuído ao termo reprodução/transformação e, por extensão, aos aspectos do termo aparelho ideológico do Estado que Pêcheux procura elucidar. Considera errôneo localizar em pontos diferentes, de um lado o que contribui para a reprodução das relações de produção, e do outro o que contribui para a sua transformação.
Algumas considerações que contribuíram para a “contradição” da expressão usada:
1. Os aparelhos ideológicos do estado não são realização da ideologia em geral (ou Ideologia, com maiúscula, segundo Althusser); a Ideologia não se reproduz sob a forma da mentalidade da época, nem sob os costumes do pensamento ou o espírito do tempo (Zeitgeist);
2. É impossível atribuir a cada classe sua ideologia como se cada uma delas vivesse previamente à luta de classes, em seu próprio campo, com suas condições específicas, cada uma com sua concepção de mundo como se a luta de classe fosse o encontro de dois mundos distintos e pré-existentes em que a classe mais forte imporia sua ideologia à outra;
3. Os aparelhos ideológicos do Estado não são a expressão da dominação da ideologia dominante, i.é., da ideologia da classe dominante; os aparelhos ideológicos do Estado são o lugar e meio de realização dessas ideologias.
Está claro para Pêcheux que ideologias não são feitas de idéias, mas de práticas e que o estabelecimento dos aparelhos ideológicos do estado é o palco de uma dura e ininterrupta luta de classes e constituem simultânea e contraditoriamente, o lugar e as condições ideológicas da transformação das relações de produção, daí a expressão reprodução/transformação das relações de produção .
Essas condições contraditórias são constituídas em um momento histórico dado e para uma formação social dada, pelo conjunto complexo, com relações de contradição-desigualdade-subordinação entre seus elementos. Infere-se daí, que os aparelhos não contribuem de maneira igual para a reprodução das relações de produção e para a sua transformação; a contribuição é relativa, tendo em vista as propriedades regionais – religião, política, conhecimento, etc.- no interior do conjunto dos aparelhos ideológicos de estado em função do estado de luta na formação social considerada.
Dessa forma, é possível falar em objetividade material da instância ideológica, sob a forma de formações ideológicas, caracterizada pela estrutura de desigualdade-subordinação do todo complexo com o dominante das formações ideológicas de uma formação social dada; estrutura que não é senão a da contradição reprodução/transformação que constitui a luta ideológica de classe.
É importante ressaltar que quando se coloca a questão da contradição, não se pode pensá-la como a oposição de duas forças que se exercem uma contra a outra em uma mesmo espaço. Segundo Pêcheux, a forma não é simétrica, no sentido de que cada uma tenderia a realizar em proveito próprio a mesma coisa que a outra; a relação de classe é dissimulada no funcionamento do aparelho ideológico do Estado pelo próprio mecanismo que a realiza dando a impressão e evidências naturais à produção e reprodução da sociedade, Estado e sujeitos de direito (livres e iguais no modo de produção capitalista). Tampouco se pode opor reprodução e transformação como se faz com “inércia e movimento”, uma vez que é um processo objetivo que é preciso desvendar.
Evocando tese central de Althusser – a ideologia interpela os indivíduos em sujeitos -,e respectivas proposições: só há prática através de o sob uma ideologia; só há ideologia pelo sujeito e para o sujeito (a categoria do sujeito é constitutiva de toda ideologia), Pêcheux introduz em sua análise alguns termos novos como: Ideologia (no singular), indivíduo, sujeito, interpelar e propõe uma distinção rigorosa entre formação ideológica, ideologia dominante e Ideologia.
Trata, primeiramente da Ideologia, interpelação e do “Efeito Münchhausen”, reforçando que as ideologias ou formações ideológicas têm existência histórica e concreta; enquanto a Ideologia não tem história, e se caracteriza por uma estrutura e um funcionamento que fazem dela uma realidade não-histórica, isto é, omni-histórica, no sentido em que esta estrutura e este funcionamento se apresentam na mesma foram imutável em toda a história. Ideologia (em geral), permite pensar “o homem” como animal ideológico, i.é., pensar em sua especificidade enquanto parte da natureza, segundo a filosofia espinosiana; a história é um imenso sistema “natural-humano” em movimento, cujo motor é a luta de classes. A história da luta de classes é a reprodução/transformação das relações de classes – com caracteres infra-estruturais (econômicos) e superestruturais (jurídico-políticos e ideológicos) que lhes correspondem. E é no interior desse processo “natural-humano” da história que a Ideologia é eterna (omni-histórico) e inconsciente.
O caráter comum das estruturas-funcionamentos designadas, respectivamente, como Ideologia e inconsciente é o de dissimular sua própria existência no interior mesmo de seu funcionamento, produzindo um tecido de evidências “subjetivas” (evidência do sentido), devendo entender-se este último adjetivo não como “que afetam o sujeito”, mas nas quais se constituem o sujeito como origem ou causa de si.
Assim, a evidência do sujeito está aproximada da evidência do sentido, como todas as evidências, inclusive aquelas que fazem com que uma palavra designe uma coisa ou possua um significado. A evidência o sujeito é o efeito ideológico elementar.
Temos então, pelo exposto, a determinação do trabalho de Pêcheux, determinação pela qual a questão das constituição do sentido junta-se à da constituição do sujeito na figura da interpelação. Essa figura tem o mérito de tornar tangível o vínculo superestrutural – determinado pela infra-estrutura econômica – entre o aparelho repressivo do Estado ( aparelho jurídico-político que distribui, verifica, controla “as entidades”) e os aparelhos ideológicos, portanto: o vínculo entre o “sujeito de direito” (aquele que entra em relação contratual com outros sujeitos de direito: seus iguais) e o sujeito ideológico ( aquele que diz ao falar de si mesmo: “Sou eu”). A figura da interpelação mostra esse vínculo entre o aparelho repressivo e o ideológico de maneira tal que o teatro da consciência é observado dos bastidores, lá onde se pode captar que se fala do sujeito, que se fala ao sujeito, antes de que o sujeito possa dizer: “Eu falo”.
Outro mérito da figura da interpelação é designar pela discrepância indivíduo/sujeito o paradoxo pelo qual o sujeito é chamado à existência, ou melhor, o não-sujeito é interpelado-constituído em sujeito pela ideologia. Essa concepção corta pela raiz qualquer tentativa que consiste em inverter, pura e simplesmente, a metáfora que liga o sujeito e as diversas “pessoas morais”, as quais, à primeira vista, parecem ser sujeitos constituídos a partir de uma coletividade de sujeitos, impondo a cada sujeito sua marca ideológica sob a forma de socialização do indivíduo nas “relações sociais” concebidas como intersubjetivas. A evidência do sujeito oculta o ato de que o sujeito é desde sempre um indivíduo interpelado em sujeito ao considerar-se como único, insubstituível e idêntico a si mesmo quando diz: “Sou eu”. A evidência da identidade oculta que esta resulta de um identificação-interpelação do sujeito, suja origem estranha é, contudo, estranhamente familiar.
Para explicar o processo, Pêcheux introduz a noção do “pré-construído” que consiste numa discrepância pela qual um elemento irrompe no enunciado como se tivesse sido pensado antes, em outro lugar, independentemente. O efeito do pré-construído pode então ser considerado uma modalidade discursiva da discrepância pela qual o indivíduo é interpelado em sujeito, ao mesmo tempo que é sempre já sujeito. Essa discrepância entre a estranheza familiar desse discurso já situado antes, em outro lugar, independentemente, e o sujeito identificável, que dá conta de seus atos, funciona por contradição que faz com que o sujeito seja submetido a ela por ignorância, ou apreensão por agudeza de espírito, i.é., estupidez ou ironia.
É nesse jogo de identidade de um sujeito, de uma coisa ou acontecimento, que se pode observar o sintoma evidente da interpelação-identificação. Não se trata aqui apenas de evocar palavras ou o papel da linguagem deixando incerta a questão do signo que designa alguma coisa para alguém, mas se trata fundamentalmente do significante – daquilo que representa o sujeito para um outro significante. É na questão do significante que reside o sujeito como processo de representação interior ao não-sujeito constituído pela rede de significantes, no sentido lacaniano, em que o sujeito é “preso”, resultando daí como causa de si mesmo. Eis aí a contradição: produzir como resultado uma causa (efeito) de si e seu papel motor em relação ao processo do significante na interpelação-identificação. No entanto, a consciência desse processo sofre um apagamento, para o qual, Pêcheux dá o nome de efeito Münchhausen, por alusão à memória do imortal barão que se elevava nos ares puxando-se pelos próprios cabelos.
A questão que se impõe agora, já que a ideologia recruta sujeitos entre os indivíduos, é tentar estabelecer de que modo todos os indivíduos recebem como evidente o sentido do que ouvem e dizem, lêem ou escrevem (do que eles querem e do que se quer lhes dizer), enquanto sujeitos falantes. Talvez a compreensão da forma como se desenvolve processo seja uma maneira de se evitar o efeito Münchhausen, colocando o sujeito como origem do sujeito, ou seja, colocando o sujeito do discurso como sujeito do discurso.
Já foi vimos que sob a evidência de que “eu sou realmente eu” (sujeito social com identidade, família, idéias, intenções e compromissos) há o processo de interpelação-identificação que produz o sujeito no lugar deixado vazio, sob diversas formas impostas pela relações jurídico-ideológicas. A título de exemplo, Pêcheux cita o futuro do subjuntivo da lei jurídica: “aquele que causar dano...” é um lugar vazio, porém a lei sempre encontra um jeito de “agarrar” alguém para esse lugar produzindo um sujeito de direito. O sujeito ideológico é interpelado e reduplica o sujeito de direito sob a evidência da constatação que veicula e mascara a norma identificadora. Assim, é a ideologia através do “hábito” e do “uso” que designa, ao mesmo tempo, o que é e o que deve ser, e isso às vezes por desvios lingüísticos como foi exemplificado. É ainda a ideologia que estabelece os conceitos que devem ser atribuídos a tal ou tal coisa; é a ideologia que estabelece evidências que fazem com que uma palavra ou um enunciado ‘queiram dizer o que realmente dizem” e que mascaram, assim, sob a forma de “transparência da linguagem, aquilo que Pêcheux chama de o caráter material do sentido das palavras e dos enunciados.
Esse caráter material transparente para o sujeito consiste na sua dependência constitutiva do “todo complexo das formações ideológicas”, que se dá por meio de duas teses:
1ª. pela Formação discursiva: aquilo que numa formação ideológica dada, isto é, a partir de uma posição dada numa conjuntura dada, determinada pelo estado de luta de classes, determina o que pode e deve ser dito ( articulado sob a forma de uma arenga, um sermão, de um panfleto,etc.). O sentido de uma palavra, de uma expressão, de uma proposição é determinado pelas posições ideológicas que estão em jogo no processo sócio-histórico que permitem a produção e a reprodução dos discursos que adquirem seu sentido em referência às formações ideológicas nas quais se inscrevem. Assim, os indivíduos são interpelados em sujeitos-falantes, em sujeitos de seu discurso pelas formações discursivas que representam “na linguagem” as formações ideológicas que lhes são correspondentes.
Se uma expressão, uma palavra pode ter um sentido diferente à cada formação discursiva, de modo correlato, palavras, expressões, proposições literalmente diferentes podem ter o mesmo sentido no interior de uma FD. A esse sistema de relações de substituição, paráfrases, sinonímias, etc. que funcionam entre elementos lingüísticos “significantes” em uma formação discursiva dada, designa-se processo discursivo.
Percebe-se um evidente deslocamento da concepção de Referência da lingüística, não mais a relação entre a palavra e o objeto, mas relação entre a palavra e a formação discursiva na qual os sentidos são produzidos e constituídos.
2ª. Pela dissimulação (apagamento) de como ocorre o processo:
É característico de toda FD dissimular, na transparência do sentido que nela se forma, a objetividade material contraditória do interdiscurso, que determina essa formação discursiva como tal, objetividade material essa que reside no fato de que “algo fala” (ça parle) sempre “antes, em outro lugar e independentemente”, isto é, sob a dominação do complexo das formações ideológicas.
Assim, teríamos duas formas de esquecimento [1]:
O esquecimento nº 1 , em que o sujeito é constituído pelo esquecimento daquilo que o determina; o sujeito apaga a FD, quando pensa que ele é a fonte de seu discurso; apagando a FD ele é a fonte, o fundador, “a causa em si”.
O esquecimento nº 2, o sujeito fala alguma coisa a partir de escolhas e reformulações no interior da FD que o domina; “re” – produz seqüência, enunciados de forma consciente ou “pré-consciente”, segundo a psicanálise. É uma espécie de mascaramento já percebido, o sujeito percebe as escolhas erradas.
Portanto, aquilo que se define como EGO (onde se constitui para o sujeito a relação imaginária com a realidade) não pode reconhecer sua subordinação-assujeitamento ao Outro porque esse processo se realiza no sujeito sob a forma de autonomia, ou seja, o sujeito se constitui pelo esquecimento daquilo que o determina.
O funcionamento da Ideologia como interpelação dos indivíduos em sujeitos e, especificamente em sujeitos de seu discurso, se realiza através do complexo das formações ideológica, através o interdiscurso intrincado neste complexo, fornecendo a cada sujeito a “sua realidade”, enquanto sistemas de evidências e de significações percebidas, aceitas, experimentadas.
A identificação do indivíduo com a FD que o domina, fundadora da unidade (imaginária) do sujeito, apoia-se no fato de que os elementos do interdiscurso (sob sua dupla forma – pré-construído e processo de sustentação) que constituem, no discurso do sujeito, os traços que o determina, são reinscritos no discurso do próprio sujeito que se acha então, autor do próprio discurso pelo processo de mascaramento.
Com referência ao interdiscurso e a forma como se dá sua tessitura, Pêcheux considera como aspectos diferenciais dois tipos de elementos: o pré-construído e as articulações, sendo imprescindível agora estabelecer algumas considerações.
Para o autor, o pré-construído e as articulações determinam o sujeito, impondo-dissimulando-lhe seu assujeitamento sob a aparência de autonomia, isto é, através da estrutura discursiva da forma-sujeito. A formação discursiva que veicula a forma-sujeito é a FD dominante. As formações discursivas determinam a dominação da FD dominante pelo interdiscuso que constituem. O pré-construído corresponde ao “sempre-já-aí” da interpelação ideológica que fornece-impõe a “realidade e seu sentido” sob a forma de universalidade (o mundo das coisas).
A articulação constitui o sujeito em sua relação com o sentido, de modo que ela representa, no interdiscurso, aquilo que determina a dominação da forma-sujeito2. Esta relação com o sentido se trata de possibilidades de substituição entre elementos (palavras, expressões, proposições) no interior de uma FD dada.
O interdiscurso, enquanto discurso transverso, atravessa e põe em conexão entre si os elementos discursivos constituídos pelo interdiscurso enquanto pré-construído, que fornece, por assim dizer, a matéria-prima na qual o sujeito se constitui como sujeito-falante, com a formação discursiva que o assujeita. Pêcheux considera que o intradiscurso (habitualmente concebido como o discurso em relação a ele mesmo), nada mais seria do que um efeito do interdiscurso sobre si mesmo, uma espécie de “interioridade” inteiramente determinada como tal do “exterior”. Assim, a forma-sujeito - pela qual o “sujeito do discurso” se identifica com a formação discursiva que o constitui – tende a absorve-esquecer o interdiscurso no intradiscurso, isto é, ela simula o interdiscuso no intradiscurso, de modo que o interdiscurso aparece como o puro “já-dito” do intradiscurso, no qual ele se articula por “co-referência”3.
A função do pré-construído seria ainda a de remeter simultaneamente “àquilo que todo mundo sabe”, isto é, aos conteúdos de pensamento do “sujeito universal”- suporte da identificação – e àquilo que todo mundo, em uma situação dada, pode ser e entender, sob a forma das evidências do “contexto situacional”. A articulação – e o discurso transverso como seu funcionamento – corresponde, ao mesmo tempo, a: “como dissemos” (evocação intradiscursiva); “como todo mundo sabe” (retorno do Universal no sujeito); “como todo mundo pode ver” (universalidade implícita de toda situação “humana”).
Pêcheux conclui que todo sujeito é assujeitado4 no universal como no singular “insubstituível”. A marca do inconsciente como “discurso do Outro” designa no sujeito a presença eficaz do “Sujeito”, que faz com que todo sujeito “funcione”, isto é, tome posição, “em total consciência e em total liberdade”, tome iniciativas pelas quais se torna “responsável como autor de seus atos”, e assim por diante. As noções de asserção e de enunciação estão aí para designar, no domínio da “linguagem”, os atos de tomada de posição do sujeito, enquanto sujeito-falante. A noção do “ato de linguagem” traduz, de fato, o desconhecimento da determinação do sujeito no discurso, já que a tomada de posição não é, de modo algum concebível como um ato originário do sujeito-falante, ela deve ser concebida como o efeito, na forma-sujeito, da determinação do interdiscurso como discurso-transverso, i.é., o efeito de exterioridade do real-ideológico-discursivo, na medida em que ela “se volta sobre si mesma” para se atravessar, resultando no retorno do Sujeito no sujeito. Todo discurso é, portanto, ocultação do inconsciente, assim como todo discurso é um interdiscurso, espaço de construção e reformulação do sentido pelo sujeito.
Sintetizando as controvérsias já abordadas, Pêcheux finaliza as discussões esclarecendo que toda a proposta que pretenda elaborar uma teoria materialista da ideologia e do discurso, esbarrará na problemática de se definir o conceito e situar o ponto de partida. Para Pêcheux , o verdadeiro ponto de partida para compreender a complexidade destas questões e estabelecer uma teoria que dê conta do processo que as realiza, não é o homem, o sujeito, a atividade humana, etc., mas é, sobretudo, as condições ideológicas da reprodução/transformação das relações de produção.
Nota:
[1]: O termo “esquecimento” não está designando aqui a perda de alguma coisa que se tenha sabido, como quando se fala de “perda de memória”, mas o acobertamento da causa do sujeito no próprio interior de seu efeito.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
Althusser, L. Ideologia e aparelhos ideológicos de Estado. Lisboa, São Paulo: Presença-Martins Fontes, 1974. (trad. De Idéologie et appareils idéologiques d’ État, 1970)
Pêcheux, M. Discurso e Ideologia(s). In: Semântica e discurso: uma crítica à afirmação do óbvio. Campinas: Pontes, 1990 (trad. De Discours: structure ou event, 1983).
[*]Resenha do texto Discurso e Ideologia(s), de Michel Pêcheux, produzida pela mestranda Célia Firmino, como trabalho parcial da disciplina de Análise do Discurso, ministrada pela profa. Dra. Silvia Helena Barbi Cardoso, do Curso de Mestrado, da UFMS - Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, Campus de Três Lagoas, 1998.
Althusser e Michel Pêcheux, dois nomes, duas vertentes convergindo para a discussão de um mesmo tema: o que é Ideologia.
Althusser trata de uma categoria, criada por ele – Ideologia (em geral), para distinguir um mecanismo ideológico, abstrato, eterno, a-histórico, imutável em sua forma e em toda a extensão de sua história das ideologias particulares, veiculadas e materializadas através dos aparelhos ideológicos do Estado.
Para o teórico, autor do estruturalismo funcionalista das ciências sociais, tais ideologias particulares são determinadas pelas lutas de classe, cujas práticas e regras materiais são prescritas e reguladas pelos aparelhos, que teriam, assim a função de reproduzir e perpetuar as condições de produção.
A teoria da Ideologia de Althusser (l970) apresenta três hipóteses fundamentais: a ideologia representa a relação imaginária de indivíduos com suas reais condições de existência; a ideologia tem uma existência porque existe sempre num aparelho e nas suas práticas; a ideologia interpela os indivíduos como sujeitos, ou seja, o sujeito é constituído como sujeito pela ideologia; sem a qual, não haveria sujeito.
Estabelecidas as bases da teoria de Althusser, podemos agora introduzir Pêcheux, objeto central deste trabalho, justificando que não o fizemos logo de início por considerar o fato de que Pêcheux retoma Althusser para constituir sua própria teoria, sendo portanto, necessário um breve esboço de suas idéias.
Pêcheux, considerado o iniciador do movimento da análise do discurso, propõe discutir o já dito por Althusser, acrescentando apenas que o funcionamento das ideologias, bem como a interpelação dos indivíduos como sujeitos se dá pelo discurso. Estabelece como objetivo esclarecer os fundamentos de uma teoria materialista dos processos discursivos, iniciando pela explicitação do que significa a expressão condições ideológicas da reprodução/transformação das relações de produção.
Concorda com Althusser ao considerar que a reprodução/transformação se baseia numa divisão em classes, cujo princípio é a luta de classes, reforçando que a ideologia não é o único elemento dentro do qual se efetuaria a reprodução/transformação das relações de produção de uma formação social. Há que se considerar as determinações econômicas que, em última instância, condicionam essa reprodução no seu interior. A luta de classes atravessa o modo de produção em seu conjunto, o que, na área de ideologia, significa que a luta de classes passa por o que Althusser chamou de aparelhos ideológicos do Estado.
Há um caráter intrinsecamente contraditório atribuído ao termo reprodução/transformação e, por extensão, aos aspectos do termo aparelho ideológico do Estado que Pêcheux procura elucidar. Considera errôneo localizar em pontos diferentes, de um lado o que contribui para a reprodução das relações de produção, e do outro o que contribui para a sua transformação.
Algumas considerações que contribuíram para a “contradição” da expressão usada:
1. Os aparelhos ideológicos do estado não são realização da ideologia em geral (ou Ideologia, com maiúscula, segundo Althusser); a Ideologia não se reproduz sob a forma da mentalidade da época, nem sob os costumes do pensamento ou o espírito do tempo (Zeitgeist);
2. É impossível atribuir a cada classe sua ideologia como se cada uma delas vivesse previamente à luta de classes, em seu próprio campo, com suas condições específicas, cada uma com sua concepção de mundo como se a luta de classe fosse o encontro de dois mundos distintos e pré-existentes em que a classe mais forte imporia sua ideologia à outra;
3. Os aparelhos ideológicos do Estado não são a expressão da dominação da ideologia dominante, i.é., da ideologia da classe dominante; os aparelhos ideológicos do Estado são o lugar e meio de realização dessas ideologias.
Está claro para Pêcheux que ideologias não são feitas de idéias, mas de práticas e que o estabelecimento dos aparelhos ideológicos do estado é o palco de uma dura e ininterrupta luta de classes e constituem simultânea e contraditoriamente, o lugar e as condições ideológicas da transformação das relações de produção, daí a expressão reprodução/transformação das relações de produção .
Essas condições contraditórias são constituídas em um momento histórico dado e para uma formação social dada, pelo conjunto complexo, com relações de contradição-desigualdade-subordinação entre seus elementos. Infere-se daí, que os aparelhos não contribuem de maneira igual para a reprodução das relações de produção e para a sua transformação; a contribuição é relativa, tendo em vista as propriedades regionais – religião, política, conhecimento, etc.- no interior do conjunto dos aparelhos ideológicos de estado em função do estado de luta na formação social considerada.
Dessa forma, é possível falar em objetividade material da instância ideológica, sob a forma de formações ideológicas, caracterizada pela estrutura de desigualdade-subordinação do todo complexo com o dominante das formações ideológicas de uma formação social dada; estrutura que não é senão a da contradição reprodução/transformação que constitui a luta ideológica de classe.
É importante ressaltar que quando se coloca a questão da contradição, não se pode pensá-la como a oposição de duas forças que se exercem uma contra a outra em uma mesmo espaço. Segundo Pêcheux, a forma não é simétrica, no sentido de que cada uma tenderia a realizar em proveito próprio a mesma coisa que a outra; a relação de classe é dissimulada no funcionamento do aparelho ideológico do Estado pelo próprio mecanismo que a realiza dando a impressão e evidências naturais à produção e reprodução da sociedade, Estado e sujeitos de direito (livres e iguais no modo de produção capitalista). Tampouco se pode opor reprodução e transformação como se faz com “inércia e movimento”, uma vez que é um processo objetivo que é preciso desvendar.
Evocando tese central de Althusser – a ideologia interpela os indivíduos em sujeitos -,e respectivas proposições: só há prática através de o sob uma ideologia; só há ideologia pelo sujeito e para o sujeito (a categoria do sujeito é constitutiva de toda ideologia), Pêcheux introduz em sua análise alguns termos novos como: Ideologia (no singular), indivíduo, sujeito, interpelar e propõe uma distinção rigorosa entre formação ideológica, ideologia dominante e Ideologia.
Trata, primeiramente da Ideologia, interpelação e do “Efeito Münchhausen”, reforçando que as ideologias ou formações ideológicas têm existência histórica e concreta; enquanto a Ideologia não tem história, e se caracteriza por uma estrutura e um funcionamento que fazem dela uma realidade não-histórica, isto é, omni-histórica, no sentido em que esta estrutura e este funcionamento se apresentam na mesma foram imutável em toda a história. Ideologia (em geral), permite pensar “o homem” como animal ideológico, i.é., pensar em sua especificidade enquanto parte da natureza, segundo a filosofia espinosiana; a história é um imenso sistema “natural-humano” em movimento, cujo motor é a luta de classes. A história da luta de classes é a reprodução/transformação das relações de classes – com caracteres infra-estruturais (econômicos) e superestruturais (jurídico-políticos e ideológicos) que lhes correspondem. E é no interior desse processo “natural-humano” da história que a Ideologia é eterna (omni-histórico) e inconsciente.
O caráter comum das estruturas-funcionamentos designadas, respectivamente, como Ideologia e inconsciente é o de dissimular sua própria existência no interior mesmo de seu funcionamento, produzindo um tecido de evidências “subjetivas” (evidência do sentido), devendo entender-se este último adjetivo não como “que afetam o sujeito”, mas nas quais se constituem o sujeito como origem ou causa de si.
Assim, a evidência do sujeito está aproximada da evidência do sentido, como todas as evidências, inclusive aquelas que fazem com que uma palavra designe uma coisa ou possua um significado. A evidência o sujeito é o efeito ideológico elementar.
Temos então, pelo exposto, a determinação do trabalho de Pêcheux, determinação pela qual a questão das constituição do sentido junta-se à da constituição do sujeito na figura da interpelação. Essa figura tem o mérito de tornar tangível o vínculo superestrutural – determinado pela infra-estrutura econômica – entre o aparelho repressivo do Estado ( aparelho jurídico-político que distribui, verifica, controla “as entidades”) e os aparelhos ideológicos, portanto: o vínculo entre o “sujeito de direito” (aquele que entra em relação contratual com outros sujeitos de direito: seus iguais) e o sujeito ideológico ( aquele que diz ao falar de si mesmo: “Sou eu”). A figura da interpelação mostra esse vínculo entre o aparelho repressivo e o ideológico de maneira tal que o teatro da consciência é observado dos bastidores, lá onde se pode captar que se fala do sujeito, que se fala ao sujeito, antes de que o sujeito possa dizer: “Eu falo”.
Outro mérito da figura da interpelação é designar pela discrepância indivíduo/sujeito o paradoxo pelo qual o sujeito é chamado à existência, ou melhor, o não-sujeito é interpelado-constituído em sujeito pela ideologia. Essa concepção corta pela raiz qualquer tentativa que consiste em inverter, pura e simplesmente, a metáfora que liga o sujeito e as diversas “pessoas morais”, as quais, à primeira vista, parecem ser sujeitos constituídos a partir de uma coletividade de sujeitos, impondo a cada sujeito sua marca ideológica sob a forma de socialização do indivíduo nas “relações sociais” concebidas como intersubjetivas. A evidência do sujeito oculta o ato de que o sujeito é desde sempre um indivíduo interpelado em sujeito ao considerar-se como único, insubstituível e idêntico a si mesmo quando diz: “Sou eu”. A evidência da identidade oculta que esta resulta de um identificação-interpelação do sujeito, suja origem estranha é, contudo, estranhamente familiar.
Para explicar o processo, Pêcheux introduz a noção do “pré-construído” que consiste numa discrepância pela qual um elemento irrompe no enunciado como se tivesse sido pensado antes, em outro lugar, independentemente. O efeito do pré-construído pode então ser considerado uma modalidade discursiva da discrepância pela qual o indivíduo é interpelado em sujeito, ao mesmo tempo que é sempre já sujeito. Essa discrepância entre a estranheza familiar desse discurso já situado antes, em outro lugar, independentemente, e o sujeito identificável, que dá conta de seus atos, funciona por contradição que faz com que o sujeito seja submetido a ela por ignorância, ou apreensão por agudeza de espírito, i.é., estupidez ou ironia.
É nesse jogo de identidade de um sujeito, de uma coisa ou acontecimento, que se pode observar o sintoma evidente da interpelação-identificação. Não se trata aqui apenas de evocar palavras ou o papel da linguagem deixando incerta a questão do signo que designa alguma coisa para alguém, mas se trata fundamentalmente do significante – daquilo que representa o sujeito para um outro significante. É na questão do significante que reside o sujeito como processo de representação interior ao não-sujeito constituído pela rede de significantes, no sentido lacaniano, em que o sujeito é “preso”, resultando daí como causa de si mesmo. Eis aí a contradição: produzir como resultado uma causa (efeito) de si e seu papel motor em relação ao processo do significante na interpelação-identificação. No entanto, a consciência desse processo sofre um apagamento, para o qual, Pêcheux dá o nome de efeito Münchhausen, por alusão à memória do imortal barão que se elevava nos ares puxando-se pelos próprios cabelos.
A questão que se impõe agora, já que a ideologia recruta sujeitos entre os indivíduos, é tentar estabelecer de que modo todos os indivíduos recebem como evidente o sentido do que ouvem e dizem, lêem ou escrevem (do que eles querem e do que se quer lhes dizer), enquanto sujeitos falantes. Talvez a compreensão da forma como se desenvolve processo seja uma maneira de se evitar o efeito Münchhausen, colocando o sujeito como origem do sujeito, ou seja, colocando o sujeito do discurso como sujeito do discurso.
Já foi vimos que sob a evidência de que “eu sou realmente eu” (sujeito social com identidade, família, idéias, intenções e compromissos) há o processo de interpelação-identificação que produz o sujeito no lugar deixado vazio, sob diversas formas impostas pela relações jurídico-ideológicas. A título de exemplo, Pêcheux cita o futuro do subjuntivo da lei jurídica: “aquele que causar dano...” é um lugar vazio, porém a lei sempre encontra um jeito de “agarrar” alguém para esse lugar produzindo um sujeito de direito. O sujeito ideológico é interpelado e reduplica o sujeito de direito sob a evidência da constatação que veicula e mascara a norma identificadora. Assim, é a ideologia através do “hábito” e do “uso” que designa, ao mesmo tempo, o que é e o que deve ser, e isso às vezes por desvios lingüísticos como foi exemplificado. É ainda a ideologia que estabelece os conceitos que devem ser atribuídos a tal ou tal coisa; é a ideologia que estabelece evidências que fazem com que uma palavra ou um enunciado ‘queiram dizer o que realmente dizem” e que mascaram, assim, sob a forma de “transparência da linguagem, aquilo que Pêcheux chama de o caráter material do sentido das palavras e dos enunciados.
Esse caráter material transparente para o sujeito consiste na sua dependência constitutiva do “todo complexo das formações ideológicas”, que se dá por meio de duas teses:
1ª. pela Formação discursiva: aquilo que numa formação ideológica dada, isto é, a partir de uma posição dada numa conjuntura dada, determinada pelo estado de luta de classes, determina o que pode e deve ser dito ( articulado sob a forma de uma arenga, um sermão, de um panfleto,etc.). O sentido de uma palavra, de uma expressão, de uma proposição é determinado pelas posições ideológicas que estão em jogo no processo sócio-histórico que permitem a produção e a reprodução dos discursos que adquirem seu sentido em referência às formações ideológicas nas quais se inscrevem. Assim, os indivíduos são interpelados em sujeitos-falantes, em sujeitos de seu discurso pelas formações discursivas que representam “na linguagem” as formações ideológicas que lhes são correspondentes.
Se uma expressão, uma palavra pode ter um sentido diferente à cada formação discursiva, de modo correlato, palavras, expressões, proposições literalmente diferentes podem ter o mesmo sentido no interior de uma FD. A esse sistema de relações de substituição, paráfrases, sinonímias, etc. que funcionam entre elementos lingüísticos “significantes” em uma formação discursiva dada, designa-se processo discursivo.
Percebe-se um evidente deslocamento da concepção de Referência da lingüística, não mais a relação entre a palavra e o objeto, mas relação entre a palavra e a formação discursiva na qual os sentidos são produzidos e constituídos.
2ª. Pela dissimulação (apagamento) de como ocorre o processo:
É característico de toda FD dissimular, na transparência do sentido que nela se forma, a objetividade material contraditória do interdiscurso, que determina essa formação discursiva como tal, objetividade material essa que reside no fato de que “algo fala” (ça parle) sempre “antes, em outro lugar e independentemente”, isto é, sob a dominação do complexo das formações ideológicas.
Assim, teríamos duas formas de esquecimento [1]:
O esquecimento nº 1 , em que o sujeito é constituído pelo esquecimento daquilo que o determina; o sujeito apaga a FD, quando pensa que ele é a fonte de seu discurso; apagando a FD ele é a fonte, o fundador, “a causa em si”.
O esquecimento nº 2, o sujeito fala alguma coisa a partir de escolhas e reformulações no interior da FD que o domina; “re” – produz seqüência, enunciados de forma consciente ou “pré-consciente”, segundo a psicanálise. É uma espécie de mascaramento já percebido, o sujeito percebe as escolhas erradas.
Portanto, aquilo que se define como EGO (onde se constitui para o sujeito a relação imaginária com a realidade) não pode reconhecer sua subordinação-assujeitamento ao Outro porque esse processo se realiza no sujeito sob a forma de autonomia, ou seja, o sujeito se constitui pelo esquecimento daquilo que o determina.
O funcionamento da Ideologia como interpelação dos indivíduos em sujeitos e, especificamente em sujeitos de seu discurso, se realiza através do complexo das formações ideológica, através o interdiscurso intrincado neste complexo, fornecendo a cada sujeito a “sua realidade”, enquanto sistemas de evidências e de significações percebidas, aceitas, experimentadas.
A identificação do indivíduo com a FD que o domina, fundadora da unidade (imaginária) do sujeito, apoia-se no fato de que os elementos do interdiscurso (sob sua dupla forma – pré-construído e processo de sustentação) que constituem, no discurso do sujeito, os traços que o determina, são reinscritos no discurso do próprio sujeito que se acha então, autor do próprio discurso pelo processo de mascaramento.
Com referência ao interdiscurso e a forma como se dá sua tessitura, Pêcheux considera como aspectos diferenciais dois tipos de elementos: o pré-construído e as articulações, sendo imprescindível agora estabelecer algumas considerações.
Para o autor, o pré-construído e as articulações determinam o sujeito, impondo-dissimulando-lhe seu assujeitamento sob a aparência de autonomia, isto é, através da estrutura discursiva da forma-sujeito. A formação discursiva que veicula a forma-sujeito é a FD dominante. As formações discursivas determinam a dominação da FD dominante pelo interdiscuso que constituem. O pré-construído corresponde ao “sempre-já-aí” da interpelação ideológica que fornece-impõe a “realidade e seu sentido” sob a forma de universalidade (o mundo das coisas).
A articulação constitui o sujeito em sua relação com o sentido, de modo que ela representa, no interdiscurso, aquilo que determina a dominação da forma-sujeito2. Esta relação com o sentido se trata de possibilidades de substituição entre elementos (palavras, expressões, proposições) no interior de uma FD dada.
O interdiscurso, enquanto discurso transverso, atravessa e põe em conexão entre si os elementos discursivos constituídos pelo interdiscurso enquanto pré-construído, que fornece, por assim dizer, a matéria-prima na qual o sujeito se constitui como sujeito-falante, com a formação discursiva que o assujeita. Pêcheux considera que o intradiscurso (habitualmente concebido como o discurso em relação a ele mesmo), nada mais seria do que um efeito do interdiscurso sobre si mesmo, uma espécie de “interioridade” inteiramente determinada como tal do “exterior”. Assim, a forma-sujeito - pela qual o “sujeito do discurso” se identifica com a formação discursiva que o constitui – tende a absorve-esquecer o interdiscurso no intradiscurso, isto é, ela simula o interdiscuso no intradiscurso, de modo que o interdiscurso aparece como o puro “já-dito” do intradiscurso, no qual ele se articula por “co-referência”3.
A função do pré-construído seria ainda a de remeter simultaneamente “àquilo que todo mundo sabe”, isto é, aos conteúdos de pensamento do “sujeito universal”- suporte da identificação – e àquilo que todo mundo, em uma situação dada, pode ser e entender, sob a forma das evidências do “contexto situacional”. A articulação – e o discurso transverso como seu funcionamento – corresponde, ao mesmo tempo, a: “como dissemos” (evocação intradiscursiva); “como todo mundo sabe” (retorno do Universal no sujeito); “como todo mundo pode ver” (universalidade implícita de toda situação “humana”).
Pêcheux conclui que todo sujeito é assujeitado4 no universal como no singular “insubstituível”. A marca do inconsciente como “discurso do Outro” designa no sujeito a presença eficaz do “Sujeito”, que faz com que todo sujeito “funcione”, isto é, tome posição, “em total consciência e em total liberdade”, tome iniciativas pelas quais se torna “responsável como autor de seus atos”, e assim por diante. As noções de asserção e de enunciação estão aí para designar, no domínio da “linguagem”, os atos de tomada de posição do sujeito, enquanto sujeito-falante. A noção do “ato de linguagem” traduz, de fato, o desconhecimento da determinação do sujeito no discurso, já que a tomada de posição não é, de modo algum concebível como um ato originário do sujeito-falante, ela deve ser concebida como o efeito, na forma-sujeito, da determinação do interdiscurso como discurso-transverso, i.é., o efeito de exterioridade do real-ideológico-discursivo, na medida em que ela “se volta sobre si mesma” para se atravessar, resultando no retorno do Sujeito no sujeito. Todo discurso é, portanto, ocultação do inconsciente, assim como todo discurso é um interdiscurso, espaço de construção e reformulação do sentido pelo sujeito.
Sintetizando as controvérsias já abordadas, Pêcheux finaliza as discussões esclarecendo que toda a proposta que pretenda elaborar uma teoria materialista da ideologia e do discurso, esbarrará na problemática de se definir o conceito e situar o ponto de partida. Para Pêcheux , o verdadeiro ponto de partida para compreender a complexidade destas questões e estabelecer uma teoria que dê conta do processo que as realiza, não é o homem, o sujeito, a atividade humana, etc., mas é, sobretudo, as condições ideológicas da reprodução/transformação das relações de produção.
Nota:
[1]: O termo “esquecimento” não está designando aqui a perda de alguma coisa que se tenha sabido, como quando se fala de “perda de memória”, mas o acobertamento da causa do sujeito no próprio interior de seu efeito.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
Althusser, L. Ideologia e aparelhos ideológicos de Estado. Lisboa, São Paulo: Presença-Martins Fontes, 1974. (trad. De Idéologie et appareils idéologiques d’ État, 1970)
Pêcheux, M. Discurso e Ideologia(s). In: Semântica e discurso: uma crítica à afirmação do óbvio. Campinas: Pontes, 1990 (trad. De Discours: structure ou event, 1983).
[*]Resenha do texto Discurso e Ideologia(s), de Michel Pêcheux, produzida pela mestranda Célia Firmino, como trabalho parcial da disciplina de Análise do Discurso, ministrada pela profa. Dra. Silvia Helena Barbi Cardoso, do Curso de Mestrado, da UFMS - Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, Campus de Três Lagoas, 1998.
quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009
Sobre homens e pássaros.
A mente humana não possui limites para sonhar. Mesmo quando estamos dormindo podemos ter sonhos. Mas a mente, pode também, entrar em conflito que refletem em sentimentos como medo, tristeza, depressão e até loucura. Para tentarmos entender isso melhor, vou lhes contar uma breve estória.
Um homem tem sua família, sua casa, sua vida e pode estar infeliz com tudo isso. Ele está onde não quer estar. Ele está louco? Esse mesmo homem foge e leva consigo uma bengala, uma bolsa, um chapéu, uma capa vermelha e muitos, muitos pássaros dentro de si.
Meu caro leitor perguntaria então: o tal homem levou pássaros dentro de si? Ora, quem está louco é você, e não o homem.
Não, não estou louca. Eu poderia ter dito que além dos objetos, ele levou também consigo um forte desejo de liberdade, sua vontade de estar em outro lugar; seus conflitos; seus medos; sua ‘loucura’, ou seja, seus sentimentos mais profundos. Apenas nomeei tudo isso como ‘pássaros’.
E poderei ainda dizer que os tais pássaros que ele levou ninguém nunca os entendeu. Um dia, o homem tentou deixar à mostra esses pássaros para que eles fossem vistos, analisados; mas ao mesmo tempo o homem sabia que ninguém nunca poderia tocá-los.
Bem, mas estávamos falando sobre a mente humana. E o que este homem e seus pássaros têm a ver com isso? Será que ao longo deste texto você conseguiu criar uma identidade para este homem? E eu te respondo: ele poderia ser seu pai, seu amigo, seu professor ou ainda você mesmo.
Muitas vezes entramos em conflitos com nossos desejos ou com o rumo da nossa própria vida. São aqueles momentos em que devemos parar, refletir e analisar nossos atos, para então seguirmos em frente. Devemos ser nossos próprios terapeutas e tocar nossos pássaros interiores, abrir o portão e seguir nosso caminho sem temer, nem olhar para trás.
Autora: Silmara Cristina Carneiro, graduanda do 7° termo de Letras.
Produção baseada na atividade de análise comparada dos texto "História de Passarinho", de Lygia F Telles e a obra "O Terapeuta", de René Magritte. Disciplina de Literatura Brasileira, ministrada pela professora Msc. Célia Firmino.
Um homem tem sua família, sua casa, sua vida e pode estar infeliz com tudo isso. Ele está onde não quer estar. Ele está louco? Esse mesmo homem foge e leva consigo uma bengala, uma bolsa, um chapéu, uma capa vermelha e muitos, muitos pássaros dentro de si.
Meu caro leitor perguntaria então: o tal homem levou pássaros dentro de si? Ora, quem está louco é você, e não o homem.
Não, não estou louca. Eu poderia ter dito que além dos objetos, ele levou também consigo um forte desejo de liberdade, sua vontade de estar em outro lugar; seus conflitos; seus medos; sua ‘loucura’, ou seja, seus sentimentos mais profundos. Apenas nomeei tudo isso como ‘pássaros’.
E poderei ainda dizer que os tais pássaros que ele levou ninguém nunca os entendeu. Um dia, o homem tentou deixar à mostra esses pássaros para que eles fossem vistos, analisados; mas ao mesmo tempo o homem sabia que ninguém nunca poderia tocá-los.
Bem, mas estávamos falando sobre a mente humana. E o que este homem e seus pássaros têm a ver com isso? Será que ao longo deste texto você conseguiu criar uma identidade para este homem? E eu te respondo: ele poderia ser seu pai, seu amigo, seu professor ou ainda você mesmo.
Muitas vezes entramos em conflitos com nossos desejos ou com o rumo da nossa própria vida. São aqueles momentos em que devemos parar, refletir e analisar nossos atos, para então seguirmos em frente. Devemos ser nossos próprios terapeutas e tocar nossos pássaros interiores, abrir o portão e seguir nosso caminho sem temer, nem olhar para trás.
Autora: Silmara Cristina Carneiro, graduanda do 7° termo de Letras.
Produção baseada na atividade de análise comparada dos texto "História de Passarinho", de Lygia F Telles e a obra "O Terapeuta", de René Magritte. Disciplina de Literatura Brasileira, ministrada pela professora Msc. Célia Firmino.
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